Crepúsculo dos Deuses


30.09.06


A musica e eu

 

     Ontem em passeio inconseqüente, encontrei o seu blog. Citações musicais que explodiam por todos os lados. Uma pessoa que respingava notas musicais cada vez que pressionava as teclas do keyboard sem vida. Criando mágica com as palavras. A inspiração que nasce através do que se escuta. Amei. Voltei. Reli. Apaixonei-me mais uma vez, pois eu entendi o sentimento. Assim também sou. A musica e eu. Um caso de amor que não termina, apenas recomeça. Sou cafajeste, pois eu namoro as canções e delas me afasto em busca de novos amores, novos ritmos e novos sabores. E quando, distraída, vejo a mesma musica brejeira, que um dia foi só minha, a conquistar outras estrelas, eu me calo. Vejo-a sendo sugada, cantadas e acariciada com sofreguidão, de forma lasciva, por dedos e bocas que não são os meus. Rasgo-me de ciúmes. Castigo-te musica infiel e vou atrás de outras canções para te esquecer. Tarefa impossível, eu sei, já que vive dentro de mim. Mas mesmo assim eu tento. Por que eu quero estar apaixonada pela musica... Sempre.

 

 

     Pego o meu violão imaginário. Toco e beijo todos os meus antigos amores uma ultima vez antes de mergulhar de olhos fechado no meu mais recente caso de amor. O nome desse amor? Não digo. Pois ele por hora é só meu. Vou protegê-lo. Mas quando perde-lo, por desmazelo ou distraído esquecimento eu vou confessar com indisfarçável tristeza no olhar: “Um dia essa canção foi só minha, mas agora ela é tua, e um dia, ah! glorioso dia, ela será do mundo...”

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 1h34 PM
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29.09.06


Loiro-claro-acizentado

 

Maldição… acordei mais uma vez. Será que por um dia eu não poderia dormir para sempre? Me da uma preguiça de viver as vezes. O problema não sou eu, veja bem, o problema é o mundo que é mais previsível e enfadonho que a programação televisiva dominical na tv aberta. Falta criatividade, sabe? Enquanto eu cozinho o meu cérebro para ser, escrever e dizer coisas que façam a diferença para aqueles dispostos a existir, ler e ouvir o que digo, o mundo, essa criaturinha preguiçosa, continua o mesmo. Será que ele não podia, ao menos um dia acordar e tentar ser diferente? Quem sabe pintar os cabelos? Hoje o céu poderia seria loiro-claro-acizentado após uma colorização tom sobre tom, com mechas em forma de nuvens para destacar os traços do horizonte. A gravidade poderia tirar o dia de folga e então ninguém precisaria ir de ônibus para o trabalho. Poderíamos ir flutuando ate lá. Que o ar fosse água e a água fosse ar. Assim seriamos peixes ao caminhar e beberíamos o nada absoluto durante o processo. As quatro estações seriam tocadas no modulo “Random”... Jamais saberíamos se no dia seguinte seria outono, inverno ou verão. O excitamento da surpresa ao abrir a janela e ver a neve caindo sobre a Sapucaí em pleno Fevereiro. A lua, desfragmentada em zilhões de pedaços na estratosfera, seria dividia entre os amantes. Assim, eles poderiam realmente da a lua para o alvo de seu afeto, aprendendo a dividir o que é luminoso e belo.

 

E eu penso... Não seria maravilhoso algo assim? Seria divino e sublime. Por isso, desculpe-me. Vou voltar para a cama e sonhar mais um sonho. No limite entre aqui e ali, vou construir essa realidade. Quero ver as folhas caírem das arvores aquáticas debaixo do céu amarelado enquanto bebo o ar em pequenos goles. Vou receber o meu pedaço de lua e vou da-lo para o meu bem. Com um beijo vou selar meu destino. No mundo da imaginação eu sou sim, muito mais feliz.

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 10h11 AM
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28.09.06


Ser feliz é...

 

Acordar cedo e não resmungar. Ir para a academia e não parar. Receber um elogio grosseiro do homem rude na rua e não se abalar. Acessar a internet e papear. Se ver sozinha e se alegrar. Escutar um pergunta idiota e não retrucar. Tocar aquela velha canção e dançar. Pegar uma folha e desenhar. Ter um sonho impossível e realizar. Pensar no amor que não mais existe e não se perturbar. Lembrar que é quinta feira (um dia antes do dia de folga!) e já celebrar. Visitar blogs interessantes e comentar. Olhar uma criança na rua e com ela brincar. Passar pela sala e a televisão desligar. Abrir a porta e deixar a ALEGRIA entrar...

 

 

Felicidade não é um estado de espírito e sim uma escolha pessoal. Vamos ser felizes agora. Vou calçar meu Nike de lantejoulas douradas e cair no mundo. Se eu não estiver aqui quando você aparecer, não se preocupe. Deixe o seu recado que eu fui ser feliz ali e já volto, okay?

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h24 AM
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27.09.06


A Queda

E então o amor me colocou contra a parede. Exigiu uma resposta. Exigiu a verdade. Não tive escolha. Admiti o sentimento. Ai de mim! De joelhos me coloco e assumo a verdade. Amo, amei e iria sempre amar. Ele, o amor, então me pede para lutar por ele. Diz que juntos somos invencíveis. Juntos seriamos um, ou quem sabe um dia, seriamos três. Contra tudo que eu acreditava eu atendo o pedido e jogo no chão a minha armadura, minha espada e a tiara. Coloco-me nua e revelo meus medos e segredos. Sinto-me mais desprotegida do que nunca. O amor promete ficar ao meu lado. Acredito em suas palavras. Ai de mim!

 

Diante de nos estava a grande floresta, aonde se escondiam os meus inimigos sem faces, adversários sem nomes. Atrás de cada arvore eles empreitavam meus passos com seus arcos e flechas de fogo. O amor vai à frente e diz que me encontrará no outro lado do bosque. Pede-me que seja corajosa e corra através da mata perigosa, e que espere por ele junto ao grande penhasco. Faço o que me exige. Ai de mim!

 

Por quatro dias eu atravesso a mata fechada. Sinto os galhos pontiagudos ferirem a minha pele desprotegida. Flechas atravessam a minha pele. Sangro durante a minha jornada. Junto a mim apenas a esperança e o presente dado há muito tempo atrás... O reluzente colar de prata. Finalmente avisto o penhasco e no ponto mais perigoso da elevação, o amor me esperava. Estica a mão na minha direção em um gesto mudo. O gesto diz “Vêem” e eu, tola, disparo em sua direção. Ai de mim!

 

No alto do penhasco, com sua queda interminável, eu me aproximo do amor com olhos romanescos. Prometo realizar todos os sonhos dele e me redimir de todos os meus pecados, naquela noite e no resto da minha vida...

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 1h57 PM
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Mas o amor agora se revela suas cores verdadeiras. Dando um passo para o lado, ele desvenda a traição, que se escondia em suas costas. Sinto o coração parar no instante da constatação. Fico sem palavras. Sinto uma vertigem imediata. Incapaz de compreender eu pergunto com um resquício de voz a única questão que não calava em mim: “Por que?”. Mas agora o amor, sempre tão eloqüente e articulado, se revela sem palavras e me olha de forma desapaixonada. Ai de mim! Ai de mim! Ai de mim!

 

O amor estica a mão de forma rude e arranca o colar de meu pescoço. Pega de volta o presente dado, antes de me empurrar do penhasco sem qualquer sensibilidade. Ai de mim! Desespero! Desespero! Procuro as asas que ele me deu, mas elas não funcionam. Não sou anjo, não sei voar. E por causa disso caio de maneira vertiginosa. Cada vez mais rápido, cada vez mais fundo, ate atingir, de forma trágica as pedras junto ao mar. Ai de mim!

 

Sinto o sangue jorrar das feridas abertas, cortes e sulcos. Não sinto minhas pernas. Não sinto meus braços. Não sinto meu coração. Meus olhos se abrem com imensa dificuldade e tudo que consigo ver é o céu em chamas. Metal contra as nuvens anunciando a tempestade que se aproximava. Onde estava o meu céu? Onde estava o meu mar? Ai de mim!

 

A boca repleta de sangue se fecha. Os olhos lacrimosos se cerram. Sinto a vida se esvaecendo de mim. Sinto a morte, com sua capa negra e sua foice junto a mim. Os lobos da noite se aproximam. Criaturas do passado que retornavam para devorar, mais uma vez, a minha pele. Não posso mais lutar. Não tenho como lutar. Não quero mais lutar. Que venha o meu fim... Não me importo mais. Que venha a dor e as feras. Estou pronta para perecer mais uma vez. Morrerei hoje e pelo resto da minha vida por causa do amor. A única morte em vida. A única morte que me é permitida. Venha… estou pronta. 

Escrito por Val.Qui.Ria às 1h45 PM
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Para todo sempre e alem

 

 

Morri ontem à noite. Foi morte anunciada, prevista e divulgada. Os jornais já imprimiam a noticia antes mesmo que eu recebesse o tiro no peito. Fui a ultima a saber do fato. No noticiário diurno, sem o meu conhecimento, os repórteres, com suas línguas ferinas, já davam como certo o meu falecimento antes do fenecer do dia. Se tivesse aberto a porta quando tocaram a campainha naquela tarde teria recebido a coroa de flores de amigos queridos, inconformados com a minha destruição. Não existo mais. Existi um dia, porem agora sou lembrança. Hoje meu espírito caminha, de forma cautelosa, barranco abaixo na direção do Inferno. Na porta, lado a lado, estão Hel, a soberana do submundo, e Hades, o deus da morte. Ambos me olham com inegável satisfação diante do portal criado pelo próprio Auguste Rodin. Ao lado do imenso portal de bronze, Cérbero, o cão demoníaco de múltiplas cabeças, me sorri de forma amigável. Não me surpreendo, pois sei que a criatura jamais impedia a entrada de quem quer que fosse no reino dos perdidos, somente a sua saída. Pela mão sou levada ate a porta de Dite, a cidade de insuportável ardor com suas muralhas de fogo situada na parte mais funda do Inferno, onde as culpas são muito mais fortes e as punições também. E dentro desse mundo inimaginável descubro que pertenço ao sexto circulo. Meu lugar é dentro do rio de fogo, onde estão os assassinos e os violentos com o próximo.  Esses são atingidos por incensáveis flechas dos centauros ao longo das margens. Mas antes que eu aceite o meu castigo, um anjo mau me segura pelo pulso e avisa: “Seu crime não foi ser violenta com os outros, e sim violenta consigo mesma. Ficaras aqui ate pagar por seu pecado, infiel!”. E diante dos olhos de meu executor, sinto meus pés desenvolverem raízes naquele solo sem vida, me transformando em algo rígido e putrefato. Incapaz de proferir uma só palavra eu aceito meu destino e minha punição. Transformando-me em uma arvore morta, incapaz de gerar frutos e sombra a beira do rio da morte. Para todo sempre e alem.

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h16 PM
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26.09.06


A Visita

 

Hoje uma sensação familiar voltou a me visitar. Não gosto dessa sensação, mas ela chegou mesmo assim. Sem aviso e com um sorriso cínico e maldoso no rosto transfigurado. Fiquei olhando para ela, fingindo que sabia que ela iria aparecer em horário tão impróprio, tal quais aqueles primos do interior que visitam e nunca lembram de ligar antes avisando. Fiz-me de preparada e ofereci um café para aquela visita imprevista. Ela aceitou e se acomodou em mim com uma familiaridade reservada apenas a sentimentos mais íntimos, como o carinho e o querer bem. Mas nenhum desses sentimentos estava por perto, então a minha visitante tomou proveito disso e colocou os pés em cima da mesinha de centro e jogou a bolsa em cima do sofá, me perguntando o que eu estava preparando para o almoço. Tentei ignorar o fato de que a visita estava se auto-convidando a ficar mais tempo do que eu estava disposta a aturá-la e coloquei mais um prato na mesa. Após o almoço, bem servida e comida de tudo que eu não queria lhe dar, a minha visitante inoportuna me pergunta sobre os meus planos para aquele dia, olhando de solaio para a pilha de livros e de artigos para as aulas daquela tarde, separados perto da porta. Não podendo esconder algo obvio, digo que vou trabalhar e dar aula o dia inteiro. Ela, a visita, diz que ira me acompanhar. O dia estava frio demais para que eu andasse por ai sozinha. Faço um gesto de concordância sutil com a cabeça. Sei que a maldita vai me acompanhar durante o dia inteiro e não iria adiantar lutar contra aquilo. Sendo assim, me visto, penteio os cabelos e me arrumo. Abro a porta, dando passagem para que o sentimento ruim me acompanhe, antes de trancar a porta atrás de mim, começando, dessa maneira, mais um dia de trabalho...

Escrito por Val.Qui.Ria às 9h32 PM
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