Crepúsculo dos Deuses


30.11.06


Da serie: “Vizinhos”

 

 

 

 

O homem impresso e a menina isolamento

 

 

 

O homem escreve a vida com caligrafia vivida. Bonita.

A menina sonha com uma vida que se perdeu. Doeu.

Ele decerto fantasia, mas não realiza. Apatia.

Ela escreve devaneios. Solidão machuca. Agride.

Suspira ele de alivio ao criar mais um verso. Alegria.

Suspira ela de angustia ao sofrer na carne. Desgaste.

Diante da maquina ele escreve, distrai-se e chora.

Diante da janela ela percebe, lamenta-se e pranteia.

Distante da musa, não vive. Vegeta. Cacto sem flor.

Distante do poeta, não vive.  Lamenta. Anjo de dor.

Quem desse amor testemunha, se ilumina, que sina.

Quem desse amor inveja, maldiz. O vil canalha.

Somente ele e a vida. Segue o homem papel.

Somente ela e a musica. Segue a menina solidão.

Voa a borboleta azul e observa os versos no ar.

Sim, desse amor cortês, não há como não gostar.

 

 

 

 

 

 

 

Observação: Durante os próximos dias, serão publicados pequenos textos inspirados nos meus vizinhos de blogsfera... Aguarde e confira.

  

Escrito por Val.Qui.Ria às 9h14 AM
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...te escutar machuca...

 

 

 

 

 

Shh… não diga nada.

Apenas me escute, okay?

Por muito tempo você foi:

A única pessoa que eu queria ouvir.

A única pessoa que eu queria ler.

A única pessoa que eu queria ter.

Você me curou de minha tristeza.

Baixinho, você foi a dependência e a cura.

Sou grata por isso.

Hoje eu ainda preciso de alguém.

Que me escute e entenda.

Mas essa pessoa já não é mais você.

Por que te escutar machuca... Demais.

Então me deixa no silencio.

Que agora eu sei curar sozinha

As minhas próprias feridas...

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 8h49 AM
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29.11.06


Slave to Love

 

 

 

 

.delírio.

 

 

 

Olho em seus olhos e me pergunto se é amor.

Não pode ser. Já tive amores. Não eram assim.

Não havia dor, ciúmes e essa insegurança louca.

Cada segundo longe dele, me desespero.

O que pensa? Em quem pensa?

Sou mais velha, me preocupo.

Ele é mais novo. Eu desculpo.

Diz que teve um grande amor e esse lhe abandonou.

Sinto-me outra vez dentro do meu eterno drama:

Garota de transição consertando corações.

Pague-me com atenção. A feiticeira jogará a sorte.

Faço-te desmemoriado por pouco. Vai esquecê-la.

Quanto a mim... Quem sem importa?

Pergunto-me se o marinheiro ira esperar.

Eu não esperei. Por que ele esperaria?

Não sou garota caladinha. Não sou menina boazinha.

Sou mulher. Sou forte e não gosto de esperar.

Nunca gostei.

Tenho fome de homem beijando minha boca.

Sugando-me para dentro dele. Frenesi sensorial.

Quero que pinte a minha pele com dedos rudes.

Canvas a espera do seu toque de mestre.

Meu Picasso sem noção...

 

 

Estou tão cansada... Deve ser outro delírio meu.

Isso não é amor. É ilusão.

Mas a fantasia é minha... Foda-se então.

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 12h39 AM
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27.11.06


The book is on the table...

 

 

 

 

The Crazy Teacher  ~

 

 

Alunos estressados querendo aprender em uma semana o que não quiseram aprender em um semestre... Chefa indo à loucura por conta da reforma na sala dos professores (A obra de 15 já dura 29 dias). Um pôster para a aula especial para as criança de 1 a 5 anos que precisa ficar pronto ate amanhã mas que ainda não esta do jeito que eu quero... Planos de aula para revisar... Aulas de professores para observar... Aulas de reforço que precisam ser ministradas... Temporada de provas que se aproxima... Acredite-me, é o final dos tempos! Ou pelo menos é assim que parece quando chega o termino de mais um semestre aqui na escola de inglês aonde trabalho.

 

 

Honestamente, depois de anos sofrendo como aluna, eu agora vejo o mundo de outra maneira. Estou no lado “negro da força”, ou seja, no lado dos professores. Pessoalmente eu hoje simpatizo com todos os professores cretinos que eu tive ao longo da minha carreira como estudante. Os coitados devem ter sofrido muito assim como eu sofro agora. Eu dou aula para “crianças” de 7 a 70 anos. Eu digo crianças por que é só o sujeito entrar em uma sala de aula que ele volta a agir como se estivesse outra vez na quarta serie. A única diferença é que as desculpas para não fazer o “homework” (lição de casa em inglês) se tornam mais sofisticadas. Exemplos clássicos: “Teacher, eu fiz a lição, mas esqueci em cima da minha mesa no escritório” ,  “Teacher! Minha esposa pediu para eu levar as crianças no bale e não deu tempo”  ou  “Teacher, desculpa! Meu filho pediu para eu ajudar com a lição dele e eu esqueci de fazer a minha”... E a desculpa campeã de audiência:  Mas tinha lição de casa, teacher?

 

 

 

Eu reclamo, mas eu também me divirto. Principalmente aterrorizando os meus alunos. Adoro provoca-los. Principalmente quando eles estão nervosos por conta dos testes finais. Segue abaixo um dialogo real meu hoje com a minha aluna de sete anos:

  

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h48 PM
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Student: “Teacher, a prova de amanhã vai ser difícil?

 

Crazy teacher: “Yes. Dificílima. Too difficult. Se eu fosse você nem fazia.”.

 

Student: “Teacher!! Fala serio, vai! Vai ser difícil ou não?”

 

Crazy teacher: “Tipo, se você estudou vai estar fácil, se não estudou vai estar igual aquele filme do Tom Cruise: Missão Impossível”

 

Student: “Credo teacher! Quantas paginas de prova?”

 

Crazy Teacher: “5 paginas.

 

Student: “AFF! Tudo isso? É Serio, teacher?!?”

 

Crazy Teacher: “Claro que não boba... Vai ser 15 paginas.”

 

Student: “Para teacher! Fala serio!!

 

Crazy Teacher: “E quem disse que eu estou brincando?”

 

 

Antes que pobrezinha tenha um ataque cardíaco, eu tranqüilizo a pobre. Sim, eu sei. É um divertimento macabro, mas no fundo os alunos gostam. Dizem que eu sou a professora mais maluca que eles já tiveram. Eu sei que eles estão certos, por que eu mesma nunca tive ou conheci alguém como eu. Eu só falto fazer chover em sala de aula. Ate jogar futebol com as crianças eu jogo nos intervalos de uma aula e outra. Isso quando não estou ensinado um marmanjo de 40 anos a brincar de yo-yo enquanto a minha aula particular de business não começa. Só assim para aliviar a tensão e o stress. Mas tudo bem... Falta só mais duas semanas para isso tudo terminar. Tudo bem que vai recomeçar tudo outra vez em fevereiro, mas deixa quieto. Ate lá eu vou fazendo a minha contagem regressiva... Quem sabe o tempo corre mais rápido, não é mesmo? 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h31 PM
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Meus 13 contos e meio de amor

 

 

 

 

 

 

Sabe aquela sensação gostosa de ler algo realmente bom e querer dividir com o maior numero de pessoas? Pois é meus amigos... É exatamente assim que eu estou me sentindo. Por isso, se estiverem atrás de uma boa historia de amor, eu ofereço 13 historias e meia para vocês...

 

 

 

Meus 12 amores e meio

– por Alex Sens Fuziy -

“Uma serie de 12 contos e meio, contados por um narrador de forma triste, engraçada, poética e etc. Simplesmente adorável, tocante e envolvente. Estou apaixonada por esse menino com sua forma deliciosa de escrever”

 

 

Encontros

– por D. A. -

“Um conto que eu queria ter escrito eu mesma!! Perfeita e atual. Uma lente analítica sobre as mascaras que usamos e como elas nos atrapalham a achar a nossa cara metade. Meu sorriso apos ler esse conto foi 100% verdadeiro, que fique bem claro...”

 

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 12h05 AM
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Flores

 

 

Uma semana repleta de flores

(e o que mais vier no meio delas)

 para todos

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 12h03 AM
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26.11.06


Verdadeiramente Surpreendente

 

 

 

Já foi dito que são três as fases mais importantes na vida do ser humano: Nascer, viver e morrer. Mas o homem infelizmente não lembra de nascer, não sabe viver e sofre ao morrer. Em nosso nascimento e em nossa morte temos pouca (ou nenhuma) influencia. Somos peões em um jogo aonde não sabemos as regras. Triste aposta de cartas marcadas. A única coisa que podemos controlar realmente é a maneira que vivemos. Meu conselho? Seja você mesmo então. Não se contente em sobreviver. Você merece muito mais do que isso. Mas entenda uma lógica simples: Se você continuar a fazer o que sempre fez, você vai continuar a conseguir os mesmos resultados que sempre conseguiu. Mas se você tentar fazer o que sempre fez de maneira diferente, você vai ser recompensado de uma maneira diferente também, e talvez de uma forma verdadeiramente surpreendente.

 

 

Isso não seria espetacular?

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 1h42 AM
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25.11.06


Soterrada pela literatura

 

 

 

Lista de livros a serem lidos ate o final desse mês:

 

"The Merchant of Venice" - Willian Shakespeare

"The Summer I Dared" - Barbara Delinsky

"The Graduate" - Charles Webb

"Harry Potter and the Half-Blood Prince" - J.K. Rowling

"Cleópatra - Historias, Sonhos e Distorções" - Lucy Hughes-Hallett

"Os Pilares da Terra" - Ken Follett

"Contos e Lendas Orientais" - Malba Tahan

 

 

  

Lista de coisas a serem feitas esse mês:

 

Viver

 

 

 

Lista (atualizada) de livros a serem lidos:

 

"Harry Potter and the Half-Blood Prince" - J.K. Rowling

(Por que é emprestado e já esta a semanas aqui em casa...argh!)

 

 

 

 

E você?

O que está lendo (ou tentando ler) ultimamente? 

 

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 9h01 AM
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24.11.06


O demônio era solicito e me olhava com interesse...

 

 

 

 

Com passos apresados eu atravesso a rua antes que um fusca turbinado me atropelasse. Sem olhar para trás, mentalmente mando o motorista para aquele lugar por não respeitar o sinal vermelho. Olho o relógio. Os ponteiros confirmam o que eu já suspeitava: eu tinha míseros 20 minutos para ir ate a biblioteca publica, encontrar os livros e voltar correndo para a escola. Na vitrolinha imaginaria da minha mente a trilha sonora de “Missão Impossível” começa a tocar em alto e bom som. Aquilo era um péssimo sinal... Finalmente avisto a biblioteca. Ela ficava de frente para o mar e era um dos meus lugares favoritos na cidade. Mas agora eu não tinha tempo de admirar a paisagem. Olho o relógio mais uma vez: eu tinha agora escassos 15 minutos! Corro. Abro a porta de vidro e jogo a bolsa em cima de uma das mesas. Começo a percorrer com familiaridade as prateleiras a minha disposição. Eu sabia onde encontrar o que queria. Enquanto meus dedos e os olhos procuram, de forma frenética, pela obra famosa, uma voz masculina atrás de mim tenta capturar a minha atenção, perguntando de forma solicita: - Posso ajudá-la?

 

- “O Mercador de Veneza”... Deveria estar aqui em literatura inglesa, mas não estou achando... – Respondo distraída, sem me voltar, ainda insistindo na busca.

 

- Willian Shakespeare, correto? – O homem pergunta e respondo de forma ausente com um aceno positivo de cabeça e um “huh-hum” absorto. A minha atenção ainda presa na estante a minha frente. Escuto ele balbuciar alguma coisa parecida com “Não saia daqui, vou olhar no computador” antes de me largar ali entre as obras de Dickens e Hemingway. Dois minutos depois, a frustração é total quando percebo que não havia nada ali que eu quisesse. Tanta correria por nada. Quando tudo parecia perdido, o homem gentil volta e diz nas minhas costas:

 

- Infelizmente não temos nenhuma copia aqui, mas se quiser, eu posso reservar pra você...

 

Havia algo na voz ao dizer a palavra “você” que me fez finalmente virar e olhar a criatura que tentava me ajudar com tanta boa vontade...

 

Quando ajusto o meu campo de visão, eu descubro que o demônio era solicito e me olhava com interesse. A minha atenção imediatamente sai da obra literária e recai em cima daquele capeta que me atendia. Devia ser novo ali, pois não o conhecia. Não era necessariamente belo, mas era alto e usava óculos. Não resisto homens de óculos... Devolvo o sorriso e peço então que ele me ajude a encontrar um outro livro qualquer. Percebo o sorriso em seus lábios escalar o rosto e chegar ate o seu olhar, deixando o seu rosto mais bonito, enquanto ele me apontava o caminho ate a sessão de livros estrangeiros, perguntando com animação: - Temos alguns livros escritos em inglês se lhe interessar...

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h29 AM
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“O que esse homem era? Vidente?!? Era  lógico que me interessava!”. Passo os próximos minutos passeando pelos corredores abarrotados de livros em sua companhia. Digo os autores que gosto e os livros que li. Ele me diz o nome de obras que lhe agradavam. E cada vez que ele me apresentava um livro novo, ele me olhava com ansiedade, esperando o meu veredicto diante da sugestão dada. Parecia importante para ele que eu gostasse das suas escolhas. Aquele foi sem duvida o papo literário mais gostoso que tive em muito tempo com um homem. Apos circular pela biblioteca minúscula com o demônio solicito, eu me decido por dois livros recomendados por ele. Vamos juntos ate o balcão registrar a saída dos livros. Coloco os papeis em minha mão em cima do balcão e abro minha bolsa. Percebo, revirando todos os cacarecos inúteis ali dentro, que não havia levado o maldito cartão da biblioteca!

 

- Esta aqui em algum lugar... Eu tenho certeza! Eu me lembro de ter colocado aqui... – Me desculpo, quase virando a bolsa no chão, tamanha a minha frustração.

 

- Seu nome é Valquiria?

 

- Sim... – Respondo sem olhá-lo, ainda revirando a bolsa. Provavelmente ele estava pensando que eu era uma louca. Não estaria errado. Mas poxa! Seria tão mais legal se eu pudesse passar uma impressão melhor. Argh...

 

- Seu sobrenome seria Alcântara? – Ele pergunta incerto, do outro lado do balcão.

 

- Sim, sim, sim... – Respondo distraída e frustrada. “Onde estava o cartão idiota, Meu Deus?!?”. Estou a ponto de ter uma crise histérica quando finalmente me dou conta que não havia dito o meu nome para ele. Muito menos o meu sobrenome... Apesar de cliente regular da biblioteca, eu jamais havia visto o demônio ali dentro. Sendo assim, como ele descobrira quem eu era????

 

- Como você sabe?? – Levanto o rosto e pergunto com real espanto na voz, tirando o nariz de dentro da bolsa por fim.

 

- Estava aqui em cima desses papeis... – Ele me mostra o cartão da biblioteca, com meu nome, endereço e telefone largado em cima dos papeis que estavam em minha mão. Sinto-me estúpida, idiota e cretina... Tudo ao mesmo tempo. Ainda bem que ele achou graça na careta que eu fiz. Reviro os olhos e brinco, explicando que ele havia-me assustado. Por um momento eu realmente havia achado que ele era algum tipo de vidente espetacular, para descobrir meu nome só de olhar para mim. Ele ri abertamente agora, alargando ainda mais o sorriso... Um verdadeiro demônio sem duvida.

 

Momentos depois eu deixo a biblioteca. Não preciso olhar o relógio para saber que estava irremediavelmente atrasada. Debaixo do braço os livros selecionados por ele e a satisfação em saber que eu teria dois prazeres em um futuro breve: um seria ler as obras que ele havia escolhido para mim, e o outro prazer seria voltar ali para devolver os livros para o meu mais novo demônio...

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h24 AM
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22.11.06


O Roubo

 

 

 

 

Escondido pela negritude da noite, o vulto vagueia pela rua desértica. O silencio inquebravel é seu cúmplice. A noite lânguida abraçava a figura que se movimentava de maneira discreta entre as sombras noturnas. Um gato murmura um aviso de alerta. Uma ave notívaga volta seus olhos para o ser que lentamente subia a rua. A figura solitária.


Duas quadras a direita, três casas acima e ela chega a seu destino. Revirando o relógio antigo no pulso delicado ela sabe que a hora é imprópria. O relógio lhe diria que o dia estava apenas começando e que o dia anterior havia acabado a poucos minutos. Mas não havia necessidade da confirmação. Era noite escura, e aquela era a hora. A hora para cometer o seu crime.


Determinada, a figura avança na direção do velho portão de ferro. Uma cerca de metal retorcido protegia de forma precária a bela casa. Um leve rangido foi a único protesto apresentado antes de o portão dar-se por vencido e permitir a entrada da mulher. Ela não possuía a chave do portão consigo, mas felizmente a possessão de tal objeto não havia sido necessária. Com cuidado ela fecha o portão atrás de si. Testemunhas não eram bem-vindas.


Passando pelo jardim ela se dirige a porta principal. O orvalho da manhã lhe aguçava os sentidos. As hortênsias pareciam suspirar suas fragrâncias, perfumando, dessa maneira, o seu caminho. O odor de terra molhada ainda estava presente ao seu redor. Resultado direto da pequena garoa que havia caído minutos antes da sua chegada. Como que anunciando a sua vinda.


Com passos silenciosos ela atinge a porta da bela casa. A campainha a sua direita seria completamente ignorada. Sua presença não poderia ser anunciada. Isso estragaria seus planos. Assim sendo ela, a mulher, abaixa-se e levanta a ponta esquerda superior do antigo capacho. Como mágica lá estava ela, a chave. Com um discreto sorriso ela retira o objeto de seu esconderijo. Algumas coisas jamais mudam.


O corpo delicado atravessa o umbral da porta. O silencio ainda acompanhava a mulher. Com a mão ela encosta suavemente a porta principal da casa. Janelas desprovidas de cortinas permitiam a entrada da luz noturna com seus tons azulados. A sala estava vazia. A constatação de que ela se encontrava finalmente dentro da casa lhe perturbou pela primeira vez. Não havia mais volta. Ela teria que executar o que ela havia se proposto a fazer. Um indiscutível calafrio de nervosismo deslizou pela espinha da invasora. Ela não devia estar ali, ela sabia disso. Porem não havia mais um ponto de fuga, um ponto de escape ou um retorno seguro. Ela estava ali e ela iria buscar aquilo que era seu por direito. Por bem ou por mal.

 

Ela conhecia aquela casa. Ela já havia estado ali anteriormente. Numa época em que tudo era mais fácil. Essa época já não existia mais. A lembrança daquele tempo havia abandonado aquele local, tal qual ela própria havia feito. O gosto amargo da saudade lhe sufoca por um instante. O ar parece sumir subitamente da sala. Respirar já não é tão fácil quanto era antigamente. O peso das lembranças esquecidas lhe oprime o peito e então tudo se torna mais difícil. Respirar, dormir ou viver... Nada é como antes.

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h53 PM
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A intrusa se recompõe. Suas memórias não lhe impedirão de ir avante. Seu plano original, sua vingança, estava a poucos minutos de ser realizada. Com o espírito revigorado ela abandona o templo de antigas lembranças e se dirige ao corredor largo da residência aparentemente vazia. Ela sabia o que queria e ninguém iria impedi-la de levar consigo aquilo que ela estava ali para levar. Tudo que ela precisava era de alguns minutos e então tudo estaria terminado. Terminado para sempre.


Andando pelo familiar corredor ela se encaminha para o aposento principal. No caminho, o brilho refletido do luar lhe chama a atenção. O espelho de moldura trabalhada havia capturado o brilho noturno, jogando-o em sua direção. A claridade fisgada pelo espelho e lançada em sua direção parecia lhe suplicar para reconsiderar sua decisão. Era o derradeiro aviso. Voltando-se para o espelho no corredor, testemunha muda de sua pequena tragédia, ela observa a si mesma por um instante. O olhar tranqüilo, o rosto inexpressivo e os lábios desprovidos de um sorriso. A imagem refletida de si mesma parecia perguntar com os olhos: “Você tem certeza?”.


Subitamente ela soube. Aquela era realmente a melhor coisa a se fazer. E foi dessa maneira que ela descobriu, com certeza absoluta, como poucas vezes havia acontecido na sua vida, de que aquilo era a única coisa certa a se fazer.


Revitalizada pela decisão, ela nota a cor voltar ao rosto outrora pálido e sem vida. Os olhos readquirem o brilho perdido. O sangue circula mais rápido por cada parte de seu corpo. A adrenalina corria pelas veias como uma manada de cavalos selvagens. Era chegada a hora. Era agora ou nunca. Decidida, ela abre a porta do quarto.


Tal qual o resto da casa, o ambiente estava mergulhado em sombras. O som da sua própria respiração era o único ruído que ela conseguia distinguir. Mas havia algo mais ali. Havia mais alguém. Ela sabia disso. Ele estava ali.


No canto mais escuro do quarto ela distinguiu a cama. Da porta ate o leito eram necessários exatos cinco passos. Ela sabia disso de cor. Apesar de o ambiente estar cercado pelo breu, ela sabia a disposição de cada objeto ali dentro. À direita, a escrivaninha junto ao elegante lustre. À esquerda, a janela com sua vista espetacular. Junto à porta havia uma pequena mesa onde estavam dispostas varias fotos. Recordações da vida que um dia lhe pertenceu. Recordações que ao invés de lhe alegrar a alma lhe assombravam o coração.


Saindo da segurança que a distancia lhe propunha ela se dirige ao leito no canto mais escuro do quarto. Antes mesmo de obter uma confirmação visual ela soube pelo seu perfume que ele estava dormindo na cama. O cheiro masculino lhe atinge o rosto como um tapa. Esse é o domínio dele, a fragrância parecia gritar: "Desapareça antes que seja tarde demais!" Mas ela, surda ao apelo imaginário, se aproxima do homem. Lá estava ele. Sereno e desprotegido como ela havia imaginado. O momento era aquele e não havia mais volta. Sem pensar nas conseqüências a mulher age.

 

Aproveitando-se da fragilidade masculina a mulher leva a mão direita em direção ao rosto tranqüilo e segura de forma delicada o rosto anguloso. Sem hesitar por umsegundo ela aproxima-se e mergulha seus lábios femininos nos lábios adormecidos. O beijo é sereno a principio. Ele ainda estava preso entre o sonho e a realidade. Tomando partido da situação a mulher insinua-se pelos lábios masculinos e aprofunda o beijo de forma dominadora. A ternura inicial é substituída pela ânsia de se perder nos lábios dele. Pouco a pouco ela sente o homem despertar. Ele parecia confuso, não sabendo se aquilo era um sonho ou algo verdadeiro. Mas quando ela sente o homem insinuando sua mão por entre as mechas de seus cabelos ela sabe que, de alguma maneira, ele havia chegado à conclusão de que aquilo não era um sonho. Era real e estava acontecendo.

 

A saudade que ela sentia daqueles lábios a fazia sedenta. Ela o beijava com sofreguidão. Era como morrer em vida da maneira mais sensual que ela poderia imaginar. Beijaram-se por incontáveis minutos ou horas. Era difícil de se dizer. Quando se está embriagado pelo amor a noção de tempo se torna algo obsoleto. Quando a necessidade de oxigênio se tornou mais imprescindível que o gosto dos lábios amados ambos se separaram. Com um olhar repleto de felicidade e incerteza o homem perguntou com a sua voz rouca de sono:

 

 

- Por quê?

 


A mulher nada disse. A mulher nada respondeu. Porem de alguma forma ele sabia a resposta. O sorriso da mulher lhe dizia de forma silenciosa que ela havia voltado para ficar. Sem pronunciar uma única palavra ela deitou-se ao seu lado e deixou-se abraçar. Talvez ela jamais lhe diria o por que ela havia partido ou tão pouco o por que ela havia voltado. Isso já não importava mais. Ela estava ali e isso era a única coisa que importava para o homem.

 

 

Anos mais tarde ele voltou a lhe fazer a mesma pergunta. Com um sorriso maroto ela lhe respondeu que ele havia lhe roubado o coração. Como castigo, ela havia lhe roubado aquele beijo.

 

 

 

 

THE END

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h51 PM
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21.11.06


 

 

 

 

 Total Eclipse of the Heart

 

 

 

E então eu voltei a ter aqueles pensamentos. Negros como a noite. Tristes como a mais triste melodia. Não consigo pensar, apenas chorar. Não quero me contentar em sobreviver. Quero existir. Vontade que me queima a carne e me leva a loucura. Sabendo que há um mundo melhor a minha espera, eu me algemo a uma realidade que não me serve. Quero fugir, mas não posso.  Consideração maldita. Não quero olhar e nem ser vista. Quero dormir e jamais acordar. Morrer em mim mesma. Beber a minha dose de Courvoisier V.S.O.P. com amoníaco e esquecer que existe um amanha. Pensamentos desconexos. Anne Lennox na minha junkbox mental. Ela estava certa. Algumas pessoas vão querer abusar de mim e, algumas vezes, eu vou querer ser abusada de bom grado. Conflito emocional. Contradição da palavra e do pensamento. A sensação é insuportável. Não queria ser assim. Não queria ser muitas coisas. Mas não posso evitar. Escutar a verdade é difícil. E quando ela vem de dentro, dói mais ainda. Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira, já dizia o poeta. Ate quando eu vou conseguir segurar a mascara da indiferença? Fingir que não me importo quando na verdade o meu coração sangra em meu peito. Largando um rastro rubro impossível de esconder. Talvez um dia alguém perceba as marcas da minha tristeza, mas então já será tarde demais. Pois nesse dia não restara ninguém que realmente se importe comigo. Nesse dia eu terei alcançado o meu objetivo. E do alto da minha montanha solitária eu irei olhar para baixo e ver o caminho que tracei. As escolhas erradas que fiz. E vai ser nesse dia, distante de tudo e de todos, que eu irei sentar em meu trono e chorar por tudo aquilo que eu jamais tive e jamais terei...

 

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h30 PM
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Uma das melhores coisas da vida...

 

foto: Alex Sens Fuziy

 

 

 

 

 - "Meu nome é Valquiria e eu acho que escrever é uma das melhores coisas da vida por que..." - a jovem sentada no fundo do cybercafe escreveu de maneira discreta, temendo que algum garoto de doze anos lhe chamasse de "geek" por estar escrevendo uma carta ao invés de usar o precioso tempo na internet em algo que não fosse matar um terrorista ou matar um agente especial no counter-strike. Assim sendo, ela continuou a sua apresentação: - “... acredito que escrever seja a única saída para trazer um pouco de magia a esse mundo sem graça e enfadonho...".



A gritaria no cybercafe continuava, fazendo a jovem imaginar se não seria uma idéia melhor escrever aquele texto no conforto de sua casa. Mais ai ela lembrou do valor da sua ultima conta telefônica e rapidamente mudou de idéia. Era mais fácil agüentar um bando de pré-adolescentes se matando virtualmente aos berros do que afundar mais ainda a sua conta bancaria. Com uma careta ela continua a apresentação:



“... sou relativamente nova na blogsfera, e só entrei nesse submundo por que uma pessoa muito especial ameaçou fazer um abaixo assinado se eu não montasse um blog. Achei delicado e gentil da parte dela a tal ameaça maluca e aceitei o desafio. Não faço idéia de como isso aqui funciona realmente. Todos os dias eu aprendo uma coisa nova, descobrindo formas diferentes de escrever cada vez que eu visito os meus “vizinhos”. Tem o vizinho poeta, o vizinho gótico, a vizinha que é uma vaca (com todo respeito, hein mimosa!!) e ate a vizinha nordestina com sotaque engraçadinho (sim... eu gosto do seu sotaque, sua chata). Enfim, uso esse texto para tentar explicar o que me compele a escrever ..."



A morena olha a mensagem na tela e acha que acabou de escrever uma bela de uma porcaria, porem o cronômetro cruel do cybercafe lhe avisava com frieza que seu tempo estava acabando e que não haveria tempo hábil para refazer o texto. Engolindo a frustração, ela termina o escrito antes que o seu vizinho de oito anos sentando no computador ao lado matasse mais alguns terroristas desavisados. Respirando fundo ela termina o documento escrevendo:



“... espero fazer alguns amigos aqui. Eu digo "alguns" por que eu sou uma pessoa pessimista, jamais sonharia em fazer vários amigos. Minha natureza solitária não me permitiria viver cercados de amigos... prefiro ficar cercados de inimigos. Eles são ferinos, rudes e mal educados... sempre achei esse tipo de gente mais interessante e divertida que as pessoas amáveis e dóceis. Se houver espaço para mim aqui, eu gostaria de ficar e escrever minhas historias. Sem mais delongas, eu deixou um inconseqüente ... TCHAU!"



Olhando o texto terminado, a morena não sabe se deleta tudo ou se aperta a tecla "salvar e publicar". A indecisão dura apenas alguns segundos. Será que ela deletou a mensagem ou será que não?!? Se você esta lendo esse texto, você provavelmente já sabe a resposta.




THE END

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 9h40 AM
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Dá um abraço?


 

 

 

O vídeo é curto. Mas a mensagem é maravilhosa.

Se alguém quiser me dar um abraço depois de assistir-lo, estou às ordens...

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 1h57 AM
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19.11.06


 

 

 

 

Visão de futuro

 

 

 

Todos os dias a mesma rotina. Eu caminho ao longo da orla e sento naquele mesmo banco de madeira. Lanço o meu olhar para o mar tentando visualizar o meu futuro no oceano desprovido de ondas. Porem antes de sonhar com algo que ainda não existe, eu analiso o meu presente e o meu passado. É difícil planejar o futuro se você não sabe onde esteve e aonde se encontra nesse momento

 

 

 

O meu passado é forte, disso eu sei, por que me mostra que já passei por grandes provações e sobrevivi. Meu presente é um livro de folhas em branco que é escrito de maneira descompromissada. Não devo nada a ninguém. Sou livre como sempre quis ser. Não sou casada, não tenho filhos e amo quem eu bem entender com a intensidade que eu quiser. Não tenho tudo que quero, mas tenho tudo que preciso. Possuo um emprego estável com um salário descente. Amo a minha vida como ela é, pois eu não preciso dar satisfações a ninguém, a não ser a mim mesma.

 

 

 

Dizem que pessoas com visão de futuro sempre conseguem o que desejam por uma razão muito simples: Eles sabem o que querem. Pessoas assim visualizam o futuro e o caminho que precisam seguir com tanta clareza que eles podem se projetar ate aquele amanhã longínquo. Sabem como o futuro é e como ele vai modificar as suas vidas. Pessoas assim possuem uma visão, e essa visão se torna a sua estrela guia que, como a estrela de Belém, os orienta na direção certa. É isso que procuro. Essa visão de futuro. Assim que eu a conseguir tudo se tornara mais simples. Uma questão de planejamento mesmo. E ai então, eu vou dar o primeiro passo rumo ao meu sonho impossível e torna-lo real. Algumas pessoas irão dizer que eu tive sorte na vida. Pobres criaturas. Não sabem que conseguir o que se quer não tem nada haver com sorte. Em minha opinião sorte é quando preparação encontra a oportunidade.

 

 

 

Atualmente eu estou me preparando em silencio. Por que no dia em que a oportunidade bater na minha porta, eu não vou deixar ela partir sem mim...

 

 

 

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h00 PM
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18.11.06


Sem mascaras e sem disfarces

 

 

Take off the mask … get real

  

Aceite a responsabilidade pela sua vida. Esqueça toda essa bobagem de destino e coisas que estavam escritas nas estrelas. Larga esse conto de fadas que te contaram e cresça. Joga fora essa mascara de vitima injustiçada. Sua vida é exatamente o que você fez dela. Você cria as suas próprias experiências. Boa ou ruim, bem sucedida ou não, feliz ou triste, justa ou injusta, a vida é sua. Sempre foi e sempre será. Entenda que se você não aceitar a responsabilidade para o estado na qual a sua vida se encontra, você jamais vai conseguir modifica-la. Você não é uma vitima. De uma vez por todas, você NÃO é uma vitima. Aceitar a responsabilidade pelos seus problemas é muito significativo, pois com esse conhecimento vem a certeza de que a solução reside também dentro de você. Continuar a procurar a sua volta por culpados, acusando-os pelo estado na qual a sua vida se encontra, é contra produtivo e só lhe distancia do caminho que lhe conduzira para uma vida melhor.

 

Entenda que você escolhe: Como agir / Como reagir / O que dizer / O que fazer / Com quem estar / Onde estar / Em que acreditar / O que pensar / Por quem lutar / Para onde ir / Quando resistir / Em quem confiar / Quem evitar.

  

Você escolhe o comportamento, escolhe o pensamento e, o mais importante, escolhe o que dizer para si próprio sobre si mesmo. O retrato cruel ou benevolente que pintamos de nos mesmos.

 

Sim... Existem situações que estão alem do nosso controle. Eventos que nos mudam de forma irreversível. Verdadeiras tragédias que não se apagam. Mas deixar que esses eventos nos ceguem, nublando o nosso julgamento de forma hostil, é como reviver o mesmo drama infinitamente, dando forças para algo nocivo que deveria ser esquecido ou então resolvido. Lembre-se: você não pode dar o que você não possui. Se você tem um espírito torturado por causa de problemas que teve ou por uma vida que não lhe serve, você jamais vai poder entregar nada de valor para as pessoas que VOCÊ ama. 

 

Veja na adversidade a chance de ser divino... Superar a si mesmo. E só assim seremos maiores que os deuses. Sem mascaras e sem disfarces. Sendo apenas nos mesmos.

 

Escrito por Val.Qui.Ria às 11h57 PM
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“Centro Espiritual Utópico”

 

 

 

 

Com infinita paciência a moça observava a fila interminável  a  sua frente. A fileira era composta de todo tipo estranho de gente. Apesar disso, ela permaneceu em seu lugar por 18 horas  até que o seu numero finalmente foi chamado. Caminhando através do corredor úmido e sujo com suas teias de aranha subversivas, a jovem segue em frente sem olhar uma segunda vez para as ratazanas de tamanhos que rivalizam com pequenos felinos.  

 

 

Pulando e dando passagem para uma fila indiana de baratas d'agua, a mulher finalmente se aproxima do clichê do "Centro Espiritual Utópico" ("C.E.U").  Entrega a   senha  para a dona de aspecto sinistro sentada no clichê, apresentando-se com o seu sorriso mais adorável:

 

 

- Bom dia. Eu estou aqui para dar entrada nos papeis para ser admitida no C.E.U. - a  jovem simpática explica com um belo sorriso aberto.

 

 

- Hummm... - a dona do clichê, que parecia ser tão velha quanto o   mundo,   ruminou, fazendo  com  que o som ranzinza de  sua  resposta  soasse para a moça como  "eu  sei   disso, sua pequena idiotinha" ou algo do gênero. Mesmo assim, a jovem de atitude positiva não se abala e descreve os documentos que entregava:

 

 

- Eu trouxe toda a papelada  necessária. As certidões de batismo e crisma. Originais e copias. Os comprovantes de trabalho voluntários e a certidão de antecedentes criminais limpa. Tudo registrado em cartório e  em  três  vias com firma reconhecida. E mais as duas fotos 3x4. Uma com fundo branco e  outra  comigo usando uma fantasia de anjo, como  foi  requerido.

 

 

- Hurrrrrrr... - a  dona  de aspecto leproso grunhiu do alto de sua cadeira,  ao olhar por  cima da  montanha de papeis a sua frente com um ar de desgosto, não sabendo a  doce  jovem  se era por estar tudo em ordem, ou por ser ela incapaz  de olhar qualquer coisa q não fosse com aquele ar de nojo peculiar. Sem se  importar  com  a visível falta de boa vontade da atendente a sua  frente,  a  jovem  ainda acrescenta com brilho no olhar:

Escrito por Val.Qui.Ria às 1h49 AM
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- Como a senhora pode bem ver, eu também paguei contas de todos os meus pecados na igreja, alem de contribuir de forma consistente para a construção do asilo para os velhinhos do meu antigo bairro. Os coitadinhos mereciam um fim melhor, a senhora não acha?

 

 

Dessa vez, a sinistra   mulher  de  cabelos desarrumados nem se deu ao trabalho de responder  e  apenas revirou os pequenos olhos   remelentos,  como  que  implorando paciência para lidar com   pessoas  como   aquela   singela moça a sua frente. Para   grande  surpresa da   moça,  a velhaca   de   aspecto  sombrio finalmente soltar algumas silabas através dos lábios  finos e   ressecados. As letras passam pela sua boca, trazendo consigo o bafo de  mofo alojado no  interior da boca  desdentada ao   perguntar com  pouca paciência, como já era de se esperar:

 

 

- Qual foi o motivo da morte? - Ela pergunta grunhindo.

 

 

- Motivo?!? -  a jovem responde, sem saber  ao  certo o  que responder. - Sei lá. Um dia eu estava assistindo Kelly Key no programa do Faustão na televisão e ai morri. Foi morte cerebral. Sempre soube que assistir televisão aos domingos era nocivo, mas jamais pensei que ia morrer disso. - Ela conclui pensativa, para então jogar a confusão mental para algum lugar da mente, voltando a abrir um largo sorriso sincero.

 

 

- Hrurgg... - A atendente resmunga para si própria mais uma vez e rapidamente carimba e  assina os ultimo papeis com uma  velocidade   surpreendente, que contrastava com a maneira  lenta   com que   ela   vinha   atendendo   todos naquela manhã ate   então. Possivelmente  a senhora não estava mais a agüentar o bom humor juvenil  e  resolvera se ver livre da figura jovem, antes  que  qualquer grão de vivacidade se desprendesse da  jovem  e  viesse,  para o seu horror,   se   alojar  em   sua pele enrugada e sem vida. Fazendo com que ela grite alto o suficiente para os demais na fila escutarem:

 

 


- PRÓXIMO!!!!